INSTITUCIONAL Data de Publicação: 22 set 2026 13:51 Data de Atualização: 22 set 2026 13:59
O IFSC passará a contar oficialmente com uma Incubadora Tecnológica de Economia Solidária (Ites/IFSC). O regimento que estabelece a estrutura e as regras de funcionamento da incubadora foi aprovado na segunda-feira, 21 de setembro, pelo Conselho Superior (Consup), durante a 100ª Reunião Ordinária do colegiado. A proposta já havia sido aprovada pelo Colegiado de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) em junho, por meio da Resolução Cepe/IFSC nº 41.
A aprovação pelo Consup consolida uma parte do processo de institucionalização da economia solidária que vem sendo construído no IFSC com a participação da Diretoria de Extensão (Direx) e de 12 câmpus, estes representados por servidores que aderiram à participação em um grupo de trabalho (GT) em atividade desde 2025. A iniciativa envolve ações de formação, apoio a projetos, realização de feiras de economia solidária e articulação com experiências de outros Institutos Federais.
Organizada como uma rede de núcleos incubadores nos câmpus que aderirem à proposta, a Ites/IFSC terá como objetivo apoiar empreendimentos econômicos solidários, associações, cooperativas e coletivos de produção, com prioridade para grupos em situação de vulnerabilidade social e econômica. A proposta também cria novas possibilidades de articulação entre servidores, estudantes e comunidades, com a proposta de aproximar o conhecimento produzido na instituição de demandas concretas dos territórios.
Para a diretora de Extensão do IFSC, Evelise Zerger, a aprovação representa uma mudança de escala na forma como a instituição trata a economia solidária. Iniciativas que já eram desenvolvidas de maneira localizada terão agora uma estrutura institucional para articulação e desenvolvimento conjunto. “Com a aprovação, o IFSC passa a integrar formalmente o ecossistema da Rede IF EcoSol, que reúne servidores de todo o país dedicados às tecnologias sociais. Também passa a ter uma incubadora com possibilidade de acessar oportunidades em editais diversos, como o Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (Proninc)”, explica.
Segundo Evelise, a institucionalização também dá caráter permanente a uma atuação que antes dependia de iniciativas específicas. “Representa a transformação de iniciativas isoladas de economia solidária em uma ação institucional e periódica no território de Santa Catarina. Deixa de ser o projeto de uma pessoa servidora ou de um câmpus e passa a ser uma estrutura sistêmica da instituição”, afirma.
A nova estrutura está vinculada à Pró-Reitoria de Extensão e Relações Externas (Proex), e os projetos ao Programa de Extensão de Economia Solidária do IFSC. As atividades extensionistas têm caráter público, educativo, social, tecnológico e interdisciplinar, sem fins lucrativos.
Um processo construído em rede
A criação da incubadora é resultado de um movimento que vem sendo desenvolvido coletivamente no IFSC. Em setembro de 2025, foi renovado o Grupo de Institucionalização da Economia Solidária no IFSC. Neste ano, o IFSC publicou a Instrução Normativa nº 09, que dispõe sobre o planejamento e o funcionamento das feiras nas dependências dos câmpus. A Proex lançou ainda o Edital nº 05/2026, que contemplou projetos com estudantes bolsistas nos câmpus de Araranguá, Caçador, Canoinhas, Chapecó, Criciúma, Gaspar, Jaraguá do Sul - Centro, Lages e São Miguel do Oeste.
Essas iniciativas fazem parte de um movimento mais amplo de institucionalização do tema. Para o professor Janilson Lotério, do Câmpus Chapecó, que integra o GT responsável pelo processo de institucionalização, a aprovação representa o reconhecimento de uma trajetória que já existe há anos dentro da instituição. “Esse ato representa mais do que aprovar um simples regimento, é consolidar uma política que existe dentro do IFSC e permitir que as pessoas que acreditam que uma nova economia é possível. Ele dá espaço para que as comunidades entrem no Instituto Federal, que se possa trabalhar coletivamente, trabalhar a autogestão”, destaca o professor, que trabalha desde 2010 com a economia solidária no Câmpus Chapecó.
Janilson também destaca o potencial da incubadora para ampliar a atuação do IFSC para além das atividades realizadas em sala de aula. “Esse momento vai fortalecer a missão do IFSC, irá ultrapassar a sala de aula. A incubadora permite que consigamos trabalhar com o ser humano", completou na reunião na manhã desta segunda.
Uma incubadora voltada à inovação social
A palavra “incubadora” pode remeter, inicialmente, a estruturas voltadas à criação de empresas e ao desenvolvimento de produtos para o mercado. No caso da Ites/IFSC, porém, a lógica é diferente. O regimento define a incubadora como um espaço metodológico em rede destinado ao desenvolvimento de tecnologias sociais, redes solidárias e empreendimentos autogestionários. O trabalho deverá considerar as características de cada território e partir do diálogo com os grupos envolvidos.
“Enquanto a inovação em incubadoras empresariais tradicionais foca em patentes e mercado, a Ites se pauta na inovação social. A ideia é compreender a inovação como um processo coletivo e territorial, construído a partir das realidades locais, e não apenas como desenvolvimento técnico ou mercadológico focado na concorrência”, explica Evelise.
Na prática, isso significa que o conhecimento técnico e científico produzido no IFSC será colocado em diálogo com os conhecimentos e experiências das próprias comunidades. Entre os princípios previstos no regimento estão a valorização dos saberes populares e comunitários, a educação popular, a autogestão, a cooperação e a participação democrática.
O processo de incubação será dividido em três etapas: pré-incubação, incubação e pós-incubação. A primeira envolve aproximação, mobilização e diagnóstico participativo para identificar potencialidades, demandas e características dos grupos. Na segunda, ocorre o acompanhamento mais intensivo, com apoio em aspectos como gestão, produção, comercialização e organização coletiva. Na pós-incubação, empreendimentos considerados maduros poderão permanecer vinculados à rede como parceiros para troca de experiências e fortalecimento da economia solidária.
O regimento não estabelece um modelo único de atuação para todos os grupos. Entre as diretrizes metodológicas estão o respeito aos diferentes ritmos de aprendizagem e maturação, a construção de consensos e a atuação das equipes como facilitadoras, sem impor decisões aos coletivos.
O que muda para os câmpus
A Ites/IFSC será formada pelos Núcleos Incubadores de Economia Solidária (Nies) instalados nos câmpus que aderirem à iniciativa. Cada núcleo terá a função de desenvolver as ações diretamente com as comunidades e articular projetos locais.
A coordenação institucional ficará a cargo do Comitê Permanente de Economia Solidária (CPES), órgão consultivo e deliberativo de caráter técnico responsável pela gestão sistêmica da incubadora. Já os Nies serão os espaços de execução direta, vinculados aos câmpus e articulados com as comunidades de seus territórios.
A estrutura permitirá que conhecimentos, experiências, equipamentos e infraestrutura sejam compartilhados entre os diferentes câmpus. O regimento prevê, por exemplo, o uso de salas, laboratórios, ateliês, espaços de formação, equipamentos e plataformas institucionais já existentes, conforme a disponibilidade de cada unidade. A incubadora também poderá firmar parcerias com instituições públicas, privadas e comunitárias para compartilhar espaços e recursos.
Para Evelise, essa organização em rede é uma das principais características da proposta. Em vez de criar estruturas isoladas, a intenção é estabelecer uma articulação permanente entre os câmpus, permitindo que experiências e conhecimentos desenvolvidos em uma região possam contribuir para iniciativas de outras partes do estado. A adesão dos câmpus será voluntária. O próximo passo será a consulta a essas unidades para identificar quais desejam participar do processo de criação dos núcleos incubadores.
Quem poderá ser atendido
O público da incubadora será formado por empreendimentos econômicos solidários, organizações associativas e coletivos de produção. O regimento estabelece prioridade para grupos em situação de vulnerabilidade social e econômica.
A definição permite que a atuação seja adaptada às características de cada região. Entre os exemplos citados pela Diretoria de Extensão estão agricultores familiares, catadores de materiais recicláveis, marisqueiras, artesãs, povos indígenas e quilombolas, redes de turismo comunitário, entre outros grupos, além dos próprios estudantes e egressos do IFSC. “Essa prioridade para o público em vulnerabilidade reflete diretamente o arranjo produtivo local de cada região, valorizando a diversidade socioprodutiva”, destaca Evelise.
O ingresso dos empreendimentos deverá ocorrer por meio de processos de seleção pública, com critérios definidos em editais ou chamadas específicas, lançados pelos Nies e apoiados pelo CPES, a partir de modelo base.
Experiências de outros institutos
A discussão sobre como uma incubadora pode funcionar na prática esteve presente no 12º Seminário de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação do IFSC (Sepei 2026), realizado de 27 a 29 de agosto no Câmpus Caçador. Uma mesa-redonda sobre incubadoras tecnológicas de economia solidária nos Institutos Federais reuniu experiências do Instituto Federal da Bahia (IFBA), do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e do Instituto Federal de Alagoas (IFAL).
As experiências apresentadas ajudam a mostrar caminhos que podem ser considerados na implantação da estrutura catarinense. A Rede IF EcoSol, da qual o IFSC passa a fazer parte formalmente, reúne servidores da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica envolvidos com ensino, pesquisa, extensão e inovação tecnológica em economia solidária. A realização da mesa no Sepei também foi uma das etapas do processo de institucionalização conduzido pelo IFSC.
Assista a mesa-redonda realizada no Sepei 2026:
Recursos e próximos passos
O regimento prevê que a Incubadora Tecnológica de Economia Solidária do IFSC busque prioritariamente recursos externos para financiar suas atividades, podendo contar também com aportes do IFSC conforme a disponibilidade orçamentária. Entre as fontes potenciais estão editais de fomento, chamadas públicas, convênios, doações e recursos de projetos.
Durante a apresentação ao Consup, Evelise citou ainda o Edital nº 120/2026, da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec/MEC) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), para a seleção de projetos de incubadoras tecnológicas de economia solidária, com previsão de recursos de até R$ 150 mil.
Além deste edital, foi lançamento recentemente o edital do Proninc, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (FINEP/MCTI), que financiará propostas com repasse individual entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões, para execução em 36 meses.
Os recursos captados poderão ser utilizados na execução dos projetos de incubação, no pagamento de bolsas de extensão, pesquisa e inovação e no custeio de materiais e serviços necessários às atividades.
O regimento estabelece que a ausência de uma dotação orçamentária específica não impede o funcionamento da incubadora. Nesse caso, a instituição deverá priorizar a articulação em rede, o trabalho extensionista e o uso compartilhado da infraestrutura já disponível.
A implantação terá um ciclo piloto de dois anos. A partir da aprovação pelo Consup, o CPES terá 180 dias para apresentar um Plano de Implantação, com metas e cronogramas. Ao final do ciclo, deverá ser apresentado ao Conselho Superior um relatório com os resultados e uma proposta de revisão regimental definitiva.
Além da criação dos núcleos nos câmpus, o processo de institucionalização prevê outros desdobramentos. Entre eles está a construção de uma Política de Economia Solidária do IFSC, que deverá ampliar e organizar as diretrizes institucionais para o tema.