História, memória, luta e resistência: saber popular se mescla ao acadêmico na produção de conhecimento sobre o Contestado

SEPEI Data de Publicação: 28 ago 2026 18:25 Data de Atualização: 28 ago 2026 18:50

Sediado numa cidade integrante da chamada Região do Contestado, no meio-oeste catarinense, o 12º Seminário de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação (Sepei 2026) do IFSC ofereceu uma série de atividades que trouxeram à luz aspectos do importante e complexo conflito social ocorrido, oficialmente, entre 1912 e 1916 - mas que teve desdobramentos nos anos seguintes e hoje ainda reverbera, sobretudo na resistência das comunidades caboclas.

“O Contestado é uma memória em disputa”, define o educador popular Jilson Carlos de Souza, caboclo morador de Fraiburgo, descendente de indígenas e escravizados, que foi um dos facilitadores da oficina “Caixa de memórias do Contestado”. Na dinâmica, os participantes acessaram, de olhos fechados, o conteúdo de um baú com objetos que fazem referência a elementos do Contestado: um quepe militar, que simboliza os integrantes do chamado “exército da arrogância”, responsável pelo genocídio dos caboclos durante o conflito; uma panela de ferro, que remete à partilha de alimento espiritual e físico pelo monge João Maria, um dos líderes religiosos cercados de lendas e misticismo, até hoje cultuado em diferentes crenças; a bandeira do Contestado, feita de algodão cru simples, referência ao tecido que os caboclos usavam no dia a dia, com uma cruz verde centralizada, referência a elementos como a fé e às cruzes de cedro que eram plantadas pelos monges nos locais onde passavam.

Dentro da caixa de memórias, também havia um facão de madeira, que remete às armas rústicas de que os caboclos dispunham para enfrentar, na disputa desigual, o exército que portava armas de fogo e até aviões; um retrato do monge João Maria de Agostinho, um dos três líderes espirituais que circularam pela região no início do século 20 e a quem chega a ser atribuída uma única identidade nos cultos atuais; flores de marcela e folhas de erva-mate, plantas presentes no cotidiano dos caboclos até hoje.

Diálogo

Em outra atividade, uma forte voz atual de resistência do povo caboclo dividiu o espaço de fala com um dos maiores estudiosos da questão do Contestado na academia universitária. A mesa-redonda “Memória e história do Contestado” reuniu Ezanir Prates, referência na preservação da cultura cabocla do Contestado e coordenadora do Grupo Renascença Cabocla, que atua na valorização dos saberes, da religiosidade e da memória desse povo; e o historiador Paulo Pinheiro Machado, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), autor de várias obras sobre o Contestado e coordenador do Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado. 

Ezanir destacou que é integrante da terceira geração dos sobreviventes do Contestado e falou sobre o trabalho árduo de resgate e preservação das tradições e memórias de seu povo. “Falam que o Contestado foi uma guerra, mas nunca existiu guerra, e sim um genocídio, uma matança”, enfatiza. Ela também descreveu o medo dos caboclos de fazerem qualquer menção ao conflito ao longo de décadas, o que resultou no processo de silenciamento dessa população. Já o professor Paulo lembrou da importância do acolhimento recebido por ele nas comunidades caboclas durante suas pesquisas de campo e ressaltou que o Contestado é um dos movimentos mais importantes da história brasileira e latino-americana. Os acontecimentos ocorreram na época em que a República ainda se consolidava no Brasil, na época dos fazendeiros e coronéis, num “processo violento, doloroso e antipopular” que expulsou da terra milhares de pessoas de comunidades tradicionais. 

Para a professora Patrícia Frangelli Bugallo Lopes do Nascimento, docente no Câmpus Caçador e mediadora da mesa, a participação dos dois painelistas em diálogo com o público foi um encontro entre diferentes formas de construir conhecimento e guardar a memória do Contestado. Para o IFSC, avalia, o desafio diário é compreender o território onde a instituição está inserida, o que inclui escutar o que o território tem a dizer.

Atividades artísticas

O Contestado inspirou também algumas atividades artísticas durante o Sepei. Na abertura do evento, na noite de quinta-feira (27), o grupo de teatro Temporá apresentou uma versão reduzida da peça “O Contestado”, de Romário José Borelli. Ao longo do evento, no Pavilhão, os participantes podem apreciar a exposição “Imaginando o Contestado”, com 19 quadros com representações de cenas do Contestado, de autoria do professor do Câmpus Chapecó Gerson Witte.

Assista à gravação da peça “O Contestado”
 

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